terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Árvores nas Ruas

 

        

 Palestrantes: 

Maria Luiza Amatuzzi e Suely Kruger     

Proferida em 17-Mar-2004


 

Cada cidade é uma paisagem, onde se aliam elementos naturais e culturais. Podem não ser proporcionais, mas não são indissociáveis. 


História

         A árvore é o vegetal mais presente na vida e no ciclo histórico do homem. No início era usada como combustível para alimentar as fogueiras dentro das cavernas, como arma de caça, implemento agrícola, como componente das casas e hoje faz parte do cotidiano do homem, em vários momentos e nas mais diversas formas.  Porém a inserção da árvore no contexto urbano é muito recente na história dos povos.

         Até 1700 as árvores eram vistas apenas como integrantes das florestas que circundavam as cidades, mas os pesquisadores da época já iniciavam estudos sobre a dinâmica de desenvolvimento das árvores nos jardins botânicos em toda Europa.

         É a partir de 1800, através da iniciativa pioneira das cidades de Londres e Paris com seus squares e boulevards, respectivamente, que as árvores foram definitivamente introduzidas na malha urbana.

         No Brasil, a cidade do Recife foi o primeiro núcleo urbano a dispor de arborização de rua em pleno século XVII, sendo retomada esta atividade, no século XIX, com forte influência europeia.

         Os séculos XVIII e XIX assinalam no Rio de Janeiro, locais e obras, marcos iniciais e fundamentais do paisagismo brasileiro, como a Rua do Ouvidor, a criação do Passeio Público, Jardim Botânico, Quinta da Boa Vista e Campo de Santana.

         O Século XX irrompeu com a expansão urbana: investimentos no meio imobiliário, abertura de ruas e avenidas, expansão do transporte coletivo, surto de industrialização, êxodo rural e outros fatos que alteraram a fisionomia das cidades.

         É um período de profundas mudanças em nome da modernidade, de grandes projetos e projetistas, principalmente, nos grandes centros, mas também marcado por perdas de um patrimônio arquitetônico e vegetal, da identidade de certo local e da ruptura da relação homem-natureza. 



Importância e Benefícios da arborização urbana

         A ação dos elementos climáticos, isolados ou em interação, é responsável pela sensação de conforto ou desconforto do homem e estas ações são alteradas nos centros urbanos.

         Uma árvore sozinha não afeta a sua vizinhança em termos climáticos, mas grupos ou mesmo árvores espalhadas podem ser muito eficientes na melhoria microclimática, contribuindo para a condição humana de conforto.


Efeito da Vegetação sobre a radiação Solar

         As árvores e outros vegetais interceptam, refletem, absorvem e transmitem radiação solar, melhorando a temperatura do ar no ambiente urbano. No entanto, a eficiência do processo depende das características da espécie utilizada tais como forma da folha, densidade foliar e tipo de ramificação.

 

Efeitos da Arborização sobre a temperatura e Umidade do Ar

         A influência das árvores sobre a temperatura do ar também pode se verificar pela evaporação. Uma árvore isolada pode transpirar aproximadamente 380 litros de água por dia, resultando num resfriamento equivalente ao de 5 aparelhos de ar condicionado médios (2500 kcal/h) em funcionamento durante 20 horas por dia.

 

Efeitos da Arborização sobre o vento e Circulação do ar

         O vento também afeta o conforto humano e seu efeito pode ser positivo ou negativo, dependendo grandemente da presença ou não de vegetação urbana. No verão, a ação do vento, retirando as moléculas de água transpiradas junto a homens e árvores, aumentam a evaporação. No inverno, significa um aumento do resfriamento do ar.

         Visto que uma temperatura de 7°C combinada com um vento de 16 km/h implica em uma temperatura efetiva de 0°C, de acordo com a aplicação do “índice de resfriamento pelo vento”.

 

Ações da Arborização contra a Poluição atmosférica

         As árvores no ambiente urbano têm considerável potencial de remoção de partículas e gases poluentes da atmosfera. As folhas das árvores podem absorver gases poluentes e prender partículas sobre a sua superfície, especialmente se estas forem pilosas, cerosas ou espinhosas.

         Diminuição de poeira no ar: os efeitos da vegetação sobre poeiras e partículas devem ser considerados sob dois aspectos: o efeito aerodinâmico, dependente de modificações na velocidade do vento provocadas pela vegetação e o efeito de captação das diversas espécies de vegetais.

         Quanto aos poluentes químicos, estudos recentes identificaram novos aspectos sobre a ação dos vegetais, particularmente no caso do dióxido de enxofre (S02), do ozônio (03) e do flúor. Determinados vegetais têm uma grande capacidade de filtragem desses compostos químicos, na medida em que a poluição não se faça sentir a nível permanentemente tóxico.

 

Ação da Arborização contra a Poluição Sonora e proteção à privacidade

         O excessivo barulho nas cidades, provocado pelo tráfego, equipamentos, indústrias e construções, interfere na comunicação, lazer e descanso das pessoas, podendo afetar psicologicamente ou fisicamente o homem. É frequentemente possível o uso complementar de árvores para redução do ruído e a melhoria do aspecto visual nas cidades, enfatizando-se a união destes dois aspectos positivos das árvores.

         As árvores diminuem consideravelmente o barulho.

         Deve ser considerado que mesmo árvores isoladas, junto a residências, podem fornecer alívio de ruídos e proteção contra luzes noturnas incômodas e com certeza, garantem privacidade.

 

As árvores urbanas são patrimônio, cujo zelo compete a
todos, pois elas contam a história e dela fazem parte

                                                                       Suely Krueger



 * * * * * * 

         Para podermos usufruir de todos os benefícios, vantagens e beleza que uma árvore pode nos oferecer, devemos seguir algumas orientações básicas.

         É fundamental conhecermos as características e comportamento de cada espécie. 

1.  Dimensões e forma da árvore: Antes de tudo, precisamos saber que tamanho a árvore escolhida vai atingir quando adulta, e se o espaço disponível é adequado. Para locais onde existem fios elétricos, o ideal são arbustos ou arvoretas que não ultrapassem 5 m de altura.

2.   Origem da planta: Dar preferência às nascidas na região em que serão plantadas, para não haver problemas com adaptação.

3.  Sistema radicular: Plantar árvores cujo porte e raízes se desenvolvam sem causar prejuízos às calçadas e ruas. Muitas vezes a pivotante da árvore é quebrada, fazendo com que apareçam raízes laterais. Essas raízes são frágeis e não conseguem sustentar a árvore que consequentemente tomba causando sérios acidentes.  O tamanho da copa corresponde ao tamanho das raízes. O ideal é que elas tenham o sistema radicular limitado até 5 m.

4.   Crescimento: O desenvolvimento deve ser de médio a rápido, de modo a possibilitar a pronta recuperação da planta de possíveis acidentes.

5.   Frutos: Opte pelas frutíferas que produzem alimento para os pássaros (pitanga, gabiroba, etc.). A razão é que frutos grandes podem cair em carros estacionados ou nas pessoas e causar sujeira nas ruas.

6.   Folhas: Cidades de clima frio, dar preferência a árvores de folhas caducas, que perdem suas folhas no inverno, época em que o calor e a luz são mais necessários. Em cidades de clima quente, são recomendadas as espécies que não perdem as folhas.

7.   Princípios tóxicos: Evitar espécies que possuem princípios tóxicos ou que provoquem alergia ao homem. 

Ex.: espirradeira - Nerium oleander

 

         Com estas regras básicas, é possível plantar um futuro coberto de flores e sombra fresca para toda nossa família.

 

Modo Correto de Plantar

         Antes de plantar devemos ter certeza de que a muda está livre de pragas e doenças, ter torrão com raízes formadas e possuir uma altura mínima de 2,30 m, incluindo os 60 cm do torrão que será enterrado.

1.   Tamanho da cova: Deixe espaço para a árvore crescer. A abertura na calçada é fundamental para que a planta seja alimentada pelas águas da chuva. A abertura mínima é de 60 cm3, mas o ideal é 80 cm3 (80 cm de largura, altura e profundidade). Esse é o tamanho mínimo para que as raízes não venham comprometer a calçada. Se a calçada for larga, pode ser 1.0 m2 por 80 cm de profundidade.

2.   Prepare bem a cova com terra vegetal, enriquecida com 500 g de adubo na formulação NPK 10-10-10.

3.   Posicione a muda no centro da cova, com o tutor, que dará sustentação ao crescimento vertical da planta. Em seguida complete a cova com a terra que foi preparada.

4.   A muda deve ser fixada ao tutor por um amarrilho de sisal ou similar. Para que fique bem amarrado, faça um nó em forma de oito deitado.

5.   Durante a fase de enraizamento da planta, regue-a diariamente. Nas épocas de estiagem, as árvores também precisam de regas periódicas.

Pequenos erros que causam grandes estragos

         Vários problemas poderão surgir se a árvore não for plantada corretamente ou se a espécie for inadequada.

Alguns erros comuns:

1.   Árvores altas, com copa em meio à fiação. A poda destas árvores deve ser feita com frequência e orientação técnica, para evitar acidentes com a fiação elétrica.

2.   Evitar pequenas muretas ao redor das árvores, pois elas bloqueiam o escoamento da água da chuva para o canteiro.

3.   Sem abertura para absorção de água e nutrientes, a árvore fica sufocada, o que prejudica o seu desenvolvimento. Respeitando as medidas corretas para o plantio (80 cm3) a calçada não deverá quebrar. A árvore terá uma abertura apropriada para crescer e não precisará jogar suas raízes para fora para receber água.

4.   Árvores grandes em caminhos estreitos. O ideal é que haja um espaço mínimo de 90 cm para o trânsito livre. As raízes superficiais podem causar transtornos em áreas estreitas, além de ser um tropeço natural para as pessoas.

5.   As árvores não podem comprometer a visão de semáforos e placas nem prejudicar a iluminação das ruas.

 

Espécies ideais para calçadas de 1.5 a 2m de largura

         Onde existem fios elétricos, as árvores escolhidas devem ser de porte pequeno, com até 5 m de altura, plantadas com espaçamento de 6-8 m. 



Resedá - Lagestroemia indica

Acácia-mimosa - acacia podalirifolia

Jasmim-manga - plumeria rubra

Hibisco - hibiscus rosa-sinensi

Cerejeira-do-Japão - prunus serrulata

Ipezinho-de-jardim - tecoma stans

 

Espécies ideais para calçadas de 2 a 2.5 m de largura

         Escolha plantas de porte médio, com até 10 m de altura, plantadas com espaçamento de 8-10 m.

 

Quaresmeira - tibouchina granulosa

Manduirana - cássia speciosa

Manacá-da-serra - tibouchina mutabilis

Canafistula-de-besouro - Senna spectabilis

Pata-de-vaca - bauhinia variegata

Chuva-de-ouro - cássia fistula

Ipê amarelo - tabebuia chrysotricha

 

Espécies ideais para calçadas com mais de 3 m de largura

         Escolha plantas de porte grande, com mais de 10 m de altura, plantadas com espaçamento de 10-12 m.

 

Ipê-roxo - tabebuia avellanedae

Mulungu - erytrina mulungu

Falso-barbatimão - cássia leptophylla

Jacarandá-mimoso - jacaranda mimosaefolia

Sibipiruna - caesalpinia peltophoroides

 

Espécies que não devem ser plantadas na calçada

         São árvores que precisam de muito espaço para crescer, pois têm raízes vigorosas e frutos grandes. Elas são indicadas para sítios e parques.

 

Plátano - platanus occidentalis

Falsa seringueira - fícus elástica

Mangueira - mangifera indica

Flamboyant - delonix regia

Paineira - chorisia speciosa

Abacateiro - persea americana

Figueira benjamina - fícus benjamina

Chorão - salix babylonica

 

         As palmeiras em geral também não são apropriadas para o uso em calçadas, seja pelo porte, na maioria das vezes grande, e também pela dificuldade de manejo. No entanto, podem ser utilizadas nos canteiros centrais de avenidas e nas rotatórias, bem como nas áreas livres públicas.

         A experiência vem demonstrando que a vida útil de uma árvore em condições adversas limita-se ao redor dos 30 anos, idade na qual recomenda-se a sua substituição.

 

Poda

         A poda tem a função de adaptar a árvore e seu desenvolvimento ao espaço que ela ocupa. O conhecimento das características das espécies mais utilizadas na arborização de ruas, das técnicas de poda e das ferramentas corretas permite que esta prática seja feita de forma a não danificar a árvore.

         As concessionárias de energia elétrica e o próprio Corpo de Bombeiros realizam podas, para proteção das redes aéreas ou quando a árvore apresenta riscos. Mesmo nestas condições, por vezes, são realizadas sem o acompanhamento técnico, o que resulta em árvores com sua arquitetura original totalmente comprometida.

A poda sempre será uma agressão à árvore. Sempre deverá ser feita de modo a facilitar a cicatrização do corte. Caso contrário, a exposição do lenho permitirá a entrada de fungos e bactérias, responsáveis pelo apodrecimento de galhos e tronco e pelo aparecimento das conhecidas cavidades (ocos).

         A situação ideal é conduzir a árvore desde jovem, quando tem maior capacidade de cicatrização e regeneração, orientando o seu crescimento para adquirir uma conformação adequada ao espaço disponível.

 

Erva-de-passarinho

         Outro grande problema que atinge nossas árvores de norte a sul do país, é a erva-de-passarinho (família das Lorantaceas). É um arbusto ou subarbusto - parasito, que nasce, cresce e se desenvolve completamente sobre as árvores, alimentando-se da seiva da hospedeira. A erva é composta de ramos cilíndricos ou achatados que, à medida que crescem, vão aderindo ao tronco e aos ramos, lançando raízes sugadoras, que penetram nos vasos lenhosos donde retiram a seiva.

         Importante na disseminação são suas sementes pseudobagas suculentas, atraentes, que são ingeridas pelos passarinhos. Após a ingestão é depositada sobre um galho de uma árvore (hospedeira) já em processo de germinação e com adubo suficiente para brotar e crescer.

         A tendência da erva é desenvolver-se até tomar toda a árvore, causando seca dos ramos, galhos e tronco, advindo a morte de ambas, hospedeira e parasita.

         Não devemos confundir a erva-de-passarinho com a enorme quantidade de plantas que vivem sobre as árvores, mas que delas não parasitam, usando-as somente como suporte. É comum vermos árvores com o tronco e galhos tomados por plantas epífitas como: musgos, caraguatás, bromélias, orquídeas, líquens, etc.

         É no inverno, na nossa região, a melhor época do ano para fazermos a identificação e realizarmos o combate. Por serem suas folhas perenes, ficam em destaque nas plantas hospedeiras que têm folhas caducas. O combate da erva-de-passarinho é feito de uma forma mecânica, realizando a retirada de todas as partes da erva que se encontram na planta hospedeira. Quando a erva ainda é nova, fácil é sua retirada. Com o passar do tempo o parasita vai se robustecendo a ponto de envolver os ramos e até mesmo o tronco, sendo necessário a realização de poda, em vez da retirada tão-somente da erva.

                                                              Maria Luiza Amatuzzi

 

 

                  Boletim “O Regador” – n˚59

 

 

 

 

 

  

        


domingo, 20 de junho de 2021

Orquídea de Praia

 

            Por Giulia Bucheroni, Terra da Gente 

                                        Em 15/06/2021


O tom alaranjado das flores é característica chamativa da espécie — Foto: Fabio Pinheiro/Arquivo Pessoal 

 

Nova espécie de orquídea é descoberta no Arquipélago de Alcatrazes em São Paulo.


Principal comprovação da nova identificação é a incapacidade da planta em se reproduzir com orquídeas similares que existem no continente.

 

 

Em 1835 Charles Darwin percebeu que as ilhas abrigam espécies exclusivas, diferente das que ocorrem nos continentes, e que a origem delas é resultado das adaptações necessárias para sobreviver às condições do ambiente isolado. Desde então, pesquisadores se dedicam a estudos sobre a variedade de fauna e flora típicas das ilhas de todo o mundo.


Pouco comum, porém, é constatar o surgimento de uma nova espécie acompanhando as primeiras mudanças genéticas dela, ainda imperceptíveis visualmente. E é exatamente isso que pesquisadores do Instituto de Biologia da Unicamp têm feito com uma espécie de orquídea.


Espécie é abundante em áreas de restinga e muito comum no litoral de São Paulo — Foto: Fabio Pinheiro/Arquivo Pessoal


“Há alguns anos ficamos sabendo que a orquídea Epidendrum fulgens, bastante comum no litoral de São Paulo, ocorria também no Arquipélago de Alcatrazes (SP). Uma equipe de pesquisadores viajou até a ilha e trouxe amostras dessa planta, que eu cultivei em estufas e hoje fazem parte da coleção da universidade. A ideia era fazer o cruzamento entre plantas do continente e plantas da ilha e avaliar a capacidade reprodutiva entre elas”, conta Fabio Pinheiro, biólogo e pesquisador do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp.

 

“Nosso estudo foi o primeiro que realmente testou se os organismos eram capazes de se reproduzir com parentes do continente. Esse é um ponto determinante da formação de novas espécies, chamado de isolamento reprodutivo” 

— Fabio Pinheiro, biólogo

 

O teste foi crucial para dar início às investigações sobre uma nova espécie. “Afinal, a gente sabe que quando uma espécie está se formando, a primeira característica que surge é a incapacidade de se reproduzir com outras populações”, diz.

 

Diferente da maioria das orquídeas, espécie nasce e se desenvolve direto na areia — Foto: Fabio Pinheiro/Arquivo Pessoal

 

Os resultados animaram Fabio e Giovanna Veiga, aluna de iniciação científica do Laboratório de Ecologia Evolutiva do Instituto de Biologia. “Para a nossa surpresa elas não conseguiam mais se reproduzir. Ficamos bem contentes com o resultado, pois detectamos o surgimento de uma nova espécie na fase inicial do processo, antes mesmo de se diferenciarem morfologicamente”, comenta. 


“Essa descoberta é muito interessante porque a partir dela conseguimos monitorar e descobrir quais elementos da paisagem e quais elementos geográficos podem influenciar na formação de uma nova planta”, reforça Fabio.

 

Pesquisadores comemoram descoberta da nova espécie — Foto: Fabio Pinheiro/Arquivo Pessoal


Sem prazo para acabar

Como o processo de formação de uma nova espécie é demorado – podendo levar milhares de anos; os pesquisadores certamente não acompanharão toda a evolução da orquídea, mas os registros científicos desse e dos próximos anos de estudos serão cruciais para o futuro da ciência, principalmente no quesito isolamento reprodutivo e surgimento de novas espécies.


“A próxima etapa é entender os motivos que impedem a reprodução da espécie com as do continente. Há hipóteses de que as plantas da ilha podem ter metabolismo diferentes, polinizadores diferentes, podem captar a luz do sol de maneiras distintas, assim como se reproduzir de outra forma. A incapacidade de reprodução é suficiente para a descrição de uma nova espécie, mas estamos formalizando essa descrição com mais dados e informações”, explica Fabio, que destaca ainda a importância de estudos como esse para além da comunidade científica.

 

Epidendrum fulgens é conhecida como orquídea-da-praia — Foto: Fabio Pinheiro/Arquivo Pessoal


“Nós fazemos pesquisas assim para que a sociedade saiba mais sobre o que existe ao redor e conheça exatamente a diversidade que nos cerca. Para isso, é importante quantificar as espécies que ocorrem em todo o País, inclusive nas ilhas. Certamente existem outras plantas e animais esperando ser estudados”, completa. 

 

Orquídea de praia

A espécie de orquídea estudada pelos pesquisadores é abundante em todo trecho de litoral com restinga, desde Paraty, Rio de Janeiro até Pelotas no Rio Grande do Sul.

 

Além da coloração laranja, a flor chama atenção por nascer e crescer na areia, diferente de outras espécies de orquídeas que costumam se fixar nas árvores. “As borboletas são as principais polinizadoras dessa espécie, que não é muito usada como planta ornamental”, comenta Fabio.

 

Espécie não corre risco de extinção no continente, mas na ilha pode ser vulnerável a possíveis interferências — Foto: Fabio Pinheiro/Arquivo Pessoal


Endêmica do Brasil, a espécie não corre risco de extinção no continente, mas o fato de haver uma ‘parente’ exclusiva em Alcatrazes acende um alerta sobre a conservação. 


“No continente a orquídea sofre ameaça somente quando a praia é urbanizada. Já na ilha, por ser um ambiente restrito e uma área pequena, qualquer interferência pode fazer com que a planta desapareça facilmente. As populações são muito pequenas, formadas por algumas dezenas de plantas. Esses organismos de ilha são muito sensíveis. Se desaparecerem dali não vão existir outras fontes para recolonizar o local."

— Fabio Pinheiro, biólogo

 

Início demorado

Apesar dos pesquisadores constatarem ainda no início a formação de uma nova espécie, esse processo começou há milhares de anos. “Sabemos que há 20 mil anos o nível do mar era mais baixo que o atual e, por isso, Alcatrazes estava conectado ao continente. Conforme esse nível foi subindo, há cerca de 10 mil anos, ele se isolou como ilha. O que justifica o fato de abrigar uma população da Epidendrum fulgens”, finaliza.

 

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Orquídeas da Ilha do Cardoso, SãoPaulo em 29/05/2021 - Fotos: Denise Lobo








 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 15 de junho de 2021

Bauernmalerei – Pintura Camponesa


                                           Palestrante: Suely Conceição De Marino Krueger

                                           Palestra proferida em 7 de outubro de 2009

 


            Essa pintura de expressão decorativa foi idealizada há mais de três séculos por camponeses alemães, austríacos e suíços que ficavam em resguardo durante os meses de inverno e ao colorir o interior de suas casas com o intuito de reparar e adornar móveis, paredes e diversas peças utilitárias e de decoração, faziam uma contraposição à monotonia do branco da neve, agregando valor estético e artístico em suas residências simples de madeira. Folclórico, vibrante e muito popular nos séculos 17 e 18, o Bauer retrata a visão simples da natureza.

 


            A autêntica pintura Bauernmalerei é feita com uma única, farta e sutil pincelada por vez, sem que o traço seja refeito, em forma de uma vírgula, ou seja, semicircular. 

 


            A técnica do Bauernmalerei pode ser aplicada em diversas superfícies, incluindo a cerâmica, a madeira e o metal. O preparo básico da superfície inclui lixar, impermeabilizar e aplicar a cor de fundo. É recomendado usar tintas óleo, esmalte, acrílica ou látex e ter à mão os seguintes pincéis: redondo, filete, chato e chanfrado.

 


            As cores usadas são vivas, sem muitas misturas - como o verde, azul, ocre, bordô, vermelho, amarelo-ouro, amarelo queimado, branco e preto e a preferência por retratar figuras humanas em trajes típicos, flores, arabescos e animais estilizados - os mais comuns são os pássaros e os carneiros em cores fortes e contrastantes. Entre as flores, as mais comuns são a rosa, tulipa, a violeta, margarida, crisântemo, miosótis e as flores do campo. O desenho pode ser transferido ou feito à mão livre.

 


            Depois de escolhidas as cores, uma dica é começar a pintura pelo desenho que estiver em último plano. Por exemplo: em uma flor, o ideal é começar pintando as folhas.

 

            Nos dias de hoje, esta arte é bastante difundida em todo o mundo graças ao toque campestre e romântico.

 

                                            Revista "O Regador" – Ano I, nº 01

 


Outras fontes:

www.simplesmenteartes.com.br

www.portaldorancho.com.br
www.merapi.com.br

blog.kukos.com.br

 


Fotos:

Denise Lobo – caixa de fotografias

Vera Hungria – aluna da prof. Suely

Pinterest



quinta-feira, 20 de maio de 2021

Erva de Passarinho

                                            Palestrante: Diogenes Silmar Gusso        

                                            Palestra proferida dia 20/06/2001.                            


    Antes de iniciarmos o tema desta reunião, quero apresentar meus agradecimentos pelo convite. Creio ser uma oportunidade para que possamos conhecer um pouco de uma planta parasita que está proliferando nas árvores dos logradouros de Curitiba e talvez, reunirmos esforços em prol das nossas árvores atacadas pela erva de passarinho. Costumo dizer que o problema não está debaixo, mas pouco acima dos nossos narizes.



    A erva de passarinho é um arbusto ou subarbusto, parasito, que nasce, cresce e se desenvolve, completamente, sobre as árvores, alimentando-se da seiva da hospedeira. Distingue-se da planta hospedeira, geralmente, pela diferença de suas folhas e na formação, como que tufos, de ramos e de folhas entremeados.

A erva é composta de ramos cilíndricos ou achatados que a medida que crescem vão aderindo ao tronco e aos ramos, lançando raízes sugadoras, haustórios. que penetram nos vasos lenhosos donde retiram a seiva. Esses ramos dão a aparência de uma cobra sobre o tronco. A outra parte é formada por ramos soltos com folhas verdes e inflorescência, que por serem heliófilos procuram as partes mais altas da planta hospedeira. em busca do sol.



Em algumas espécies há formação de nó, do qual saem ramificações em todas as direções, com aparência similar a dos ramos soltos de uma planta de “chorão” que descem em direção ao solo. Suas folhas podem ser distinguidas visualmente por serem geralmente de cor verde escuro, variando em tamanho conforme as espécies mais comuns, com folhas graúdas ou com folhas miúdas. As folhas miúdas formam um emaranhado mais compacto sobre os ramos da hospedeira, que dificulta um pouco mais a sua remoção.

Importante na disseminação, são as suas sementes pseudobagas sucosas, atraentes que são ingeridas pelas aves que as dispersam após um rápido trânsito intestinal. O embrião, liberto do envoltório seminal, pela digestão, é depositado mediante a defecação, sobre o hospedeiro, desenvolvendo-se vigorosamente em uma nova planta.



É no inverno, na nossa região, a melhor época do ano para fazermos a identificação e realizarmos o combate. Por serem suas folhas perenes, ficam em destaque nas plantas hospedeiras que tem folhas caducas.

A tendência da erva é desenvolver-se até tomar toda árvore, causando seca dos ramos, galhos e do tronco, advindo a morte de ambas, hospedeira e parasita.

Ecologicamente as ervas de passarinho são vegetais primeiramente silvestres e são encontrados em todo o Brasil, desde a floresta amazônica aos campos do sul. Constituem problemas à agricultura visto atacarem plantações econômicas como: laranjeiras, cajueiros, cacaueiros, pessegueiros, ameixeiras, enfim, frutíferas. Também parasitam árvores ornamentais como: coníferas, bambus, palmeiras, plátanos, tipuanas, extremosas, cinamomos, alfeneiros, etc...

Não devemos confundir a erva de passarinho com a enorme quantidade de plantas que vivem sobre as árvores, mas que delas não parasitam, usando-as somente como suporte. É comum vermos árvores com o tronco e galhos tomados por plantas epífetas como: musgos, caraguatás, orquídeas, líquens, etc.., que naturalmente poderão causar algum dano à casca da árvore, por proporcionar concentração de umidade e não permitir a entrada dos raios solares, mas sem grande comprometimento.

O combate da erva de passarinho é feito de uma forma mecânica, realizando a retirada de todas as partes da erva que se encontra na planta hospedeira. Quando a erva ainda é nova, fácil é a sua retirada. Com o passar do tempo o parasita vai se robustecendo a ponto de envolver os ramos e até mesmo o tronco, sendo necessário a realização de poda, em vez da retirada tão somente da erva. Nos casos mais graves, em que a hospedeira está muito tomada, há necessidade de se analisar a situação em que se encontra, para poupar ao máximo a poda brusca da hospedeira, executar uma poda estética.

O método é simples, somente trabalhoso. Desconheço outra técnica.

Para realização desse trabalho necessitamos de um equipe treinada e algumas ferramentas simples como: espátula, canivete, tesoura e serrote de poda, etc... Em árvores de pequeno porte a escada resolve o acesso ao local. Para árvores de médio e grande porte, como as do Passeio Público, por exemplo, precisamos de equipamentos especiais como elevadores hidráulicos de lança, com alojamento protegido, para que facilite e ofereça segurança ao técnico ou funcionário treinado, para atingir a altura adequada e realizar a erradicação da erva.

 


Resumo da identificação da erva de passarinho

É um arbusto, parasito, que se desenvolve sobre outra planta, hospedeira, podendo se localizar em qualquer parte da árvore, de preferência nas partes superiores.

Geralmente apresenta folha verde escuro, coreacea, perene e de tamanho graúda ou miúda. Facilmente visível no outono e inverno, quando as plantas hospedeiras são as de folhas caducas.

Ramos com raízes sugadoras que aderem e penetram no caule ou nos ramos da hospedeira. Visualmente assemelha-se a uma cobra no tronco. 

A inflorescência apresenta-se em cacho, espiga e umbela. 

Nos ramos aéreos poderão formar um nó, onde outros ramos se desenvolvem e geralmente crescem em direção ao solo. 

A planta hospedeira poderá apresentar já, ramos secos nas proximidades de onde estiver instalada a erva.

O pseudofruto é semelhante a uma baga, carnudo e suculento, apreciado pelos pássaros, que fazem a sua disseminação.

 


Combate da erva de passarinho

Deve ser realizado de forma mecânica, proporcionando erradicação total da erva e preservando ao máximo a planta hospedeira, dando-lhe adequada estética.

Cientificamente a erva de passarinho está classificada na família das LORANTÁCEAS, nome originário do grego e do latim, em que, LOROS significa correia, lembrando sua característica correácea e ANTHOS que significa flor.

Nesta família encontraremos cerca de 40 gêneros, que englobam aproximadamente 1500 espécies.

Para fins ilustrativos citaremos alguns nomes genéricos e específicos que foram estudados e divulgados pelo Herbário Barbosa Rodrigues do Estado de Santa Catarina.

 


Gêneros

Phrygilanthus

Phrygilos = tentilhão - pequeno pássaro de canto muito bonito.

Anthos = flor - em alusão à disseminação por pássaros.

Espécies: Acutifolius ( parasita de raiz ) único no Brasil.

 

Struthanthus

Struthos = pássaro

Anthos = flor - em alusão à disseminação por aves. 

Espécies: Vulgaris, Polyrhizus, Uraguensis.

 

Phoradendron

Phor = ladrão

Dendron = árvore - aludindo ao modo parasitário.

Espécies: Crassifólium, Linearifólium, Hamatifólium, Ulophyllum,

                 Piperóides, Holoxanthum, Martianum, Bathyoryctum.

 

Erva de passarinho em Tupi denomina-se Guairá-repoti

Guairá = ave e repoti = fezes


                                        Boletim "O Regador" - nº 48.

 

 


 

 

 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Faxinal do Céu

 


                                   Revista O Regador Ano 01, nº01 Fev/Mar/Abr 2010

 

            Em cada edição, o Regador vai publicar artigos de especialistas sobre os mais diversos temas ligados à jardinagem. Nessa primeira, o convidado é o engenheiro florestal Mário Torres, integrante da Diretoria de Meio Ambiente e Cidadania Empresarial da Copel. Em sua estreia, ele fala sobre o bem-sucedido exemplo do Horto de Faxinal do Céu, onde o outono do hemisfério norte se faz presente, mesmo que em plena região Centro Sul do Paraná.



            Situada no terceiro planalto paranaense, distante 340 quilômetros de Curitiba, a vila de Faxinal do Céu destaca-se pela paisagem diferenciada repleta de córregos, lagos e araucárias (vegetação natural da região) e por abrigar uma grande coleção de plantas exóticas e ornamentais de diversos lugares do mundo, principalmente da Ásia e América do Norte. A ênfase é para as coníferas e folhosas caducifólias, numa área de 16 ha (160.000 m2) denominada Horto Faxinai do Céu.

            


    A história do lugar começou com a construção da maior usina da Copei em 1975, na região do médio Iguaçu, município de Pinhão, na época conhecida como Usina de Foz do Areia - atual Usina Hidrelétrica Gov. Bento Munhoz da Rocha Netto. Para abrigar os trabalhadores e suas famílias foi construída uma vila residencial, a quinze quilômetros do local da obra, em uma área típica de faxinai (mata rala com araucária, resultado da criação coletiva de várias espécies de animais domésticos).

Em Faxinai do Céu o clima temperado do terceiro planalto do sul do Brasil, com altitudes superiores a 1.100 m, favoreceu o crescimento e adaptação das espécies oriundas das regiões geladas do hemisfério norte.



    Caminhar pelos jardins do Horto é ainda mais bonito no outono, quando, predominam os tons de vermelho, rosa, laranja, amarelo e roxo.

A transformação de cores das folhas acontece em meados de abril e pode ser observada até final de junho. A alteração gradativa e imprevisível das cores das folhas do verde para os mais diversos matizes de amarelo, alaranjado, vermelho e roxo, é resultado da ação de três pigmentos: clorofila (verde), carotenóides (amarelo-laranja) e antocianina (açúcares - predominando os tons de vermelho-violeta).


    Com a chegada do outono os dias ficam mais curtos (diminui o fotoperíodo - tempo de luz disponível) e somados à menor intensidade dos raios solares a  atividade biológica das plantas diminui gradativamente até a morte das folhas causada pelo estrangulamento das suas bases, o que impede a passagem da seiva bruta. Nesse processo os pigmentos carotenóides e a antocianina permanecem nas folhas por mais tempo determinando sua coloração.